segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mimetismo

         
O vôo negro dos urubus
Pousa no dorso da Memória;
Vergando a coluna do ínfimo
Consinto mazelas reais

── Verdade é o medo da glória
Falei o que dispensas ouvir
Escutas o que dispenso sentir
Dum trago sorvi tua vida

Vazando o acre do espírito
Reordeno o caminho da terra
Modelando os contornos da fera
Dentro de mim  ──  eu a tenho

E sobrevives: na paz que afoga
As intrigas e os medos de outrora,
O eterno estigma inscrito
Dentro de mim  ──  enlameia-se o terreno

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

──────────── Grosso modo

Algo
                  supérfluo
Escárnio
Fartum
Desprezo
                  classista:
o  asco
                 do algoz
Corta cabeças 
                 cansadas
                 caladas
                 coléricas
                 com cócegas
                 com nódoas
de larvas
                 nacionais
Sim,verminam
Sim,prosseguem o progresso
Progresso suspeito
                superfaturado
                supranacional
                supracitado
Subestimado país
"Gigante com pés-de-barro"

domingo, 11 de setembro de 2011

Trecho: Capítulo VII

            
                Mas Jerônimo nada mais sentia,nem ouvia,do que aquela música embalsamada de baunilha,que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos,brilhantes e cheirosos,da mulata,principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas,que lhe iam devorar o coração.

                                                                              Aluísio de Azevedo,em O Cortiço

terça-feira, 23 de agosto de 2011

────────────── Fator humano

Reduzido
Desumano
Hipocondríaco
Estribilho

                                         Perdeu tudo,                          
atacado,
lacerado
                                                                                             por poemas
                                                                                             por cantigas:
                                          neologias
                                                                                             humanas
desconexas,
paraplégicas,
perplexas,

disformes.



Crônica



Enquanto pára,os outros correm.
Enquanto correm,não [se] exergam.
Não [se] enxergam,enquanto olha.
Enquanto olha, cresce.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Joyeux Anniversaire!

    Eu não sei usar as palavras que você usa,tão explícitas.É que de um susto eu me vi contigo e adorei sua companhia.Não percebemos que aquele ano terrível da sua sétima série,no qual nos conhecemos,passou tão rápido,não é? Agora já contamos quase dois anos juntas! Eu também não sei dizer "será para sempre",mas sei dizer que será até ficarmos velhinhas.Será o quê? Será.Nós duas em uma só amizade (e a partir daí começo a entender o que significa "ser Três em Um").Tenho aprendido muito contigo,com os seus coágulos e com a forma especial com que  retira os meus,posteriormente ajudando a apagar  minhas cicatrizes,que sinceramente amenizam-se.Ah,Vanessa,moi papillon ──  minha borboleta ──  [porque o nome deste blog  cabe muito bem  em uma homenagem ao seu nome] , continue vivendo e me falando do significado das horas iguais [aliás,agora são 17:17 ; fez um pedido à 00:00 ?].Eu só queria dizer....feliz aniversário,minha pérola ! 


                                                                             À Vanessa Fernandes

sábado, 30 de julho de 2011

Aguardente

Não encontrei lugar nos assentos vazios
O vibrar do tempo tiquetaqueia nas horas
Que,formando os anos,erram
Um milhão de palavras de significados luzidios

Se acaso o corpo da terra saiu
Com o sonoro instrumento de tua fala
Em teu peito exasperado encerras
O todo do demônio que te aturdiu

E a todos os anjos recorrerias
Se a degradação da vontade não esperasse
No fel meretrício que me confundia

Satisfeito,pelo semáforo das cores entrevias
As Leis do Direito que o túmulo escalava
Embalado por olhos e dentes de harpias


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Destro

Declinando sobre o livro,endireite a página
Pense no  personagem  das  palavras-chave
Que chicoteia as águas com lembranças sólidas
Doando coração,estômago e baço.
Respirando um ar puro,direito inviolável
Mirou e apreendeu o dorso da parede estática
Cheirou vasos de flores de aromas ácidos
Absorvendo o estilo com sarcasmo rápido
Enviando mensagens de um jeito esporádico
Rasgando leis morais com cortes hemorrágicos
Esvaziou aos poucos o pulmão foliáceo
Orquestrando concertos em lugares insondáveis
Pensando e repensando músicas irredutíveis
Segundo por segundo,irrecuperáveis
Orelhas eriçadas feito um cachorro macho:
Perfume por perfume,prendido a feixes lassos
Chacoalhou lampejos de amor como ruídos rasos
Beijou plumas macias de resíduos tóxicos
E leu você em mim como um arbusto tácito


PS:  Não,não foi o intento escrever à la Chico Buarque (a culpa foi da fumaça dos cigarros da minha tia).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nuance


Só a Verdade salva
E a justificativa está intrincada à própria carne
Disforme e cru,clamando  por independência e liberdade
Efetuando-se em pulsos e dores

Palavras  incendiárias  se  espraiam  pelo ar
Exalando  sua fumaça  adocicada
Derivam-se,estouram o mundo
Estouram a pele,estouram a carne
Fazem-se nuvens  em tempestade

“Tanto se prende ou se liberta?”
Relíquia seleta,nem tudo nasce para ser títere
Perceba o eco  concomitante  causado
Em seu próprio ser,ensaboado
E entenda

Surpreenda-se:
Penhascos não são tão profundos
Se eu os transponho
Tramitando por caminhos espessos e imundos
Um acessório,são somente um acessório
Evitando a afabilidade compulsória

E,afinal,é você quem  encontro
E finalmente tem-se a graça permanente
Minhas espáduas languidamente disponho
No espaldar  azul do infinito

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Capítulo : 1

      Lolita,luz de minha vida,labareda em minha carne.Minha alma,minha lama.Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve,no terceiro,contra os dentes.Lo.Li.Ta.
      Pela manhã ela era Lô,não mais que Lô,com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete.Era Lola ao vestir os jeans desbotados.Era Dolly na escola.Era Dolores sobre a linha pontilhada.Mas em meus braços sempre foi Lolita.
      Será que teve uma precursora? Sim,de fato teve.Na verdade,talvez jamais teria existido uma Lolita se,em certo verão,eu não houvesse amado uma menina primordial.Num principado à beira-mar.Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão.Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.
       Senhoras e senhores membros do júri,o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins ── os desinformados e simplórios serafins de nobres asas.Vejam este emaranhado de espinhos.
                     
                                                                               Vladimir Nabokov, em Lolita
                                             

terça-feira, 5 de abril de 2011

Matriz, [des]conexão ou Conjunto dos Complexos

Na intersecção de colunas e linhas
Encontra-se uma incógnita
Descrevendo neologismos em logaritmos
Especificamente nas linhas limítrofes matriciais

Do tempo muito ocupado,bem preenchido
Por outras coisas que se não é dado compreender 
E de dizeres atentos à perturbação do ritmo
A matemática está caindo,despejada,em entrelinhas

Arduamente lapidados e possíveis
Desobedecendo as leis reais intrínsecas
Numerais do imaginário vêm em verso, são absorvidos

Seus conjugados transmutam-se em verbos...
...impessoais : relampejam e trovoam,impudicos
E depois somem-se no devir da existência 

À Cláudia Gomes

M i o c á r d i o


O músculo polissêmico
Devotamente se enlaça
Em seus fonemas substancializados
Açucarados

Sintaticamente recombinam-se
Por interferência de figuras
São linguagem - verbo feito carne
Verbo que desnuda a essência

Chove; a fragilidade se desmancha
Sangra; e o breu se recompõe
Necessidade mista que volta sempre

Cortante,a alma se aprofunda no ambiente
Concorre,marca seu local
Cheira,toca,sente: o que ainda é seu por direito divino


 

R o m a


Vejo olhos baços,despropositais
Absorvendo o mundo
E sinto sinapses,como minhas
Degustando pensamentos

Sangra um dedo,ao encostar num outro
Promessas são invalidadas em instantes
O tempo,aprazível,escorre
E nasce novo homem  do casulo que desliza  no  cosmos

Sorves a essência alheia
Mantendo a nudez escancarada
Enquanto guarda o negrume do oculto

Mastigas orações na etérea ceia
São as horas finais de uma vida passada
E resume-se tudo numa palavra de quatro letras


                                                                      

segunda-feira, 4 de abril de 2011

M n e m o s y n e


── Quem és?
O eco repetia a pergunta
Mas não havia resposta.
Talvez porque não soubesse ou então não queria dizer.
 
Já não via sua imagem 
Apenas enxergava minha própria feição refletida n'água 
Tentando compreender o mistério 
Da mente,das vísceras e do coração
  
Um líquido tenebroso escorria da minha alma 
E eu sei que ela podia queimar 
Até que se tornasse escasso

Porém,permanece um ser translúcido 
Exclamativo em suas delimitações
Cercadas de penhascos