sábado, 25 de maio de 2019

"Uma agulha entrou no braço de Winston. Quase no mesmo instante, uma calidez feliz, curativa se espalhou por todo o seu corpo. A dor já estava semiesquecida. Abriu os olhos e fitou O'Brien agradecido. À vista do rosto rude e enrugado, tão feio e tão inteligente, seu coração parecia renovar-se. Caso pudesse mover-se, teria pousado a mão sobre o braço de O'Brien. Nunca o amara tão profundamente quanto naquele momento, e não apenas porque ele estancara a dor. Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento de que no fundo não importava se O'Brien era amigo ou inimigo. O'Brien era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser compreendido do que amado. A tortura a que O'Brien o submetera deixara-o à beira da demência, e em breve O'Brien certamente o mandaria para a morte. Não tinha a menor importância. Num sentido que ia ainda mais fundo que a amizade, eram muito íntimos; em algum lugar, embora as palavras talvez jamais viessem a ser ditas de fato, havia um local em que podiam se encontrar e conversar. A expressão com que O'Brien olhava para ele sugeria que possivelmente um pensamento idêntico estivesse lhe passando pela cabeça."

                                                                                                George Orwell em 1984

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